Brasilidade Empresarial · Entrevista
Alexandre Carvalho, o brasileiro à frente do marketing global da líder no setor de ingredientes para alimentos, nutrição e saúde
Publicada em 17 de junho de 2024. Entrevista conduzida por Fabiana Di Pietro.

Ele está à frente das transformações do marketing da Roquette, liderando iniciativas que moldam o futuro da multinacional francesa e sua presença no mercado global. Alexandre Carvalho é brasileiro e o atual Head Global de Marketing da empresa, líder mundial no setor de ingredientes para alimentos, nutrição e saúde, com faturamento de 6 bi Euros anuais.
Para ele, uma das características da cultura empresarial brasileira que aplica no exterior está relacionada à capacidade de decisão e execução rápidas. "Nós [brasileiros] agimos sempre como se houvesse uma 'burning platform'. Temos um viés muito forte de execução, de fazer acontecer sem precisarmos, necessariamente, ter todas as respostas antes.”
Além da capacidade de decisão e execução rápidas, que outras características você traz no seu dia a dia da Brasilidade Empresarial?
Acho que a leveza e a flexibilidade para lidar com as situações. O brasileiro tem um jeito especial de aliviar tensões no ambiente de trabalho, muitas vezes com uma piada ou um gesto amigável. Essa habilidade de criar um ambiente mais leve e colaborativo é essencial. E a flexibilidade é extremamente importante quando se lida com equipes transversais em um ambiente global com culturas diferentes.
Em algum momento no passado, você pensou que teria uma carreira profissional fora do Brasil?
Sim, foi planejado. Estava na Tetrapack e fui primeiro para a Colômbia por uma oferta de expatriado, depois Panamá, em seguida Itália. Na Itália trabalhei na DuPont, depois IFF e agora estou na França, na Roquette. Mas tive também experiências internacionais anteriores quando estava no ensino médio e na faculdade, onde passei por períodos mais curtos na Alemanha, Bélgica e EUA.
Agora que está aqui, no meio dessa revolução que a inteligência artificial está trazendo, como você vê o futuro do marketing?
Tenho assistido e participado de muitos eventos que falam sobre isso. A inteligência artificial vai transformar o marketing como conhecemos. Já estamos nesse processo. Coisas que mandávamos para uma agência antes e demoravam duas semanas para produzir, agora são feitas em segundos. Engraçado que estou percebendo também que, quando entro em alguns sites, já consigo reconhecer as imagens feitas nesses aplicativos. De certa forma, está ficando tudo igual. E, nesse sentido, também vejo que vai haver um retrocesso, e que daqui a pouco vai ser bonito fazer artesanalmente. Vejo um futuro onde a IA e o trabalho artesanal coexistirão, com a IA potencializando a criatividade humana.
E como vê o seu papel nesse cenário?
Acho que o papel do líder na era digital precisa ser mais de facilitador do que comandante. Devemos ser capazes de orquestrar equipes multifuncionais e promover uma cultura de aprendizado contínuo. A liderança hoje não é mais sobre ter todas as respostas, mas sobre saber onde encontrá-las e como coordenar os talentos certos para resolver problemas complexos. O líder deve ser um conector, capaz de criar redes de colaboração eficientes dentro e fora da organização. A minha geração vem com essa cultura do 'smartest in the room', onde você é pago para x e a expectativa é x. No entanto, hoje, para mim, é exatamente o oposto, o líder tem que ser invisível. A estrela é o time. E precisamos dar empowerment à equipe.
Falando de time, como ele se prepara?
Tem que continuar a ser mais digital savvy, continuar curioso, e continuar com a cultura de 'learn it all'. O 'smartest in the room' vai ficar obsoleto porque tanta coisa vai mudar e, se você não estiver aberto a aprender todo dia, vai ficar para trás. Você pode ter a sua experiência, mas tem que estar com a cabeça aberta e também saber admitir que não tem todas as respostas e procurar quem tenha.
Para fecharmos, uma frase que te acompanha:
’Data makes your briefcase heavy - insight makes you rich’, do Niall FitzGerald, ex-CEO da Unilever. Ela enfatiza a importância de não apenas coletar dados, mas de analisá-los e interpretá-los de maneira que gerem valor real. E acho que a IA vai nos ajudar a correlacionar as coisas, e vamos ter esse 'Aha moment'.
Você é um líder brasileiro atuando na Itália ou na Europa?
A Comunidade Executiva da Brasilidade Empresarial reúne executivos brasileiros para compartilhar experiências, ampliar conexões e transformar trajetórias individuais em inteligência coletiva.