Brasilidade Empresarial · Entrevista
Selma Maia, a executiva brasileira que vem liderando uma transformação no transporte logístico da gigante CNH Industrial
Publicada em 28 de maio de 2024. Entrevista conduzida por Fabiana Di Pietro.

Selma Olivia Maia é brasileira e uma das primeiras estrangeiras a ocupar um cargo de alta liderança na CNH Industrial na Itália, sendo a atual VP de Logística de Transporte da empresa.
Para ela, as características mais valiosas da cultura brasileira que ela aplica na sua liderança do dia-a-dia são a positividade, a adaptabilidade, a coragem, a criatividade e a resiliência.
Selma, você sabe que chamamos o conjunto dessas características quando usadas no ambiente de negócios de Brasilidade Empresarial. Você acha que ela é um diferencial no mercado executivo internacional?
Certamente. O meu chefe é belga e me diz sempre para não perder a minha essência porque eu trago uma maneira diferente de fazer as coisas. Ele diz que eu tenho a característica de ser mais positiva, criativa, de resolver problemas e de liderar e motivar pessoas.
Mas também aprendi aqui que é importante dosar as nossas características com a adaptação à cultura em que você está. Para mim, os brasileiros que crescem aqui fora definitivamente encontraram esse meio-termo.
Como foi esse percurso?
Passei os primeiros 10 anos da minha carreira em multinacionais na Volkswagen, depois 1 na Renault, e já estou há 15 anos na CNH. Sendo que os últimos 5, aqui na Itália, em cargos globais.
E a escolha pela indústria automobilística, como aconteceu?
Estava fora do Brasil fazendo um curso e soube que estavam abrindo a Volkswagen em Curitiba. Mandei meu currículo e fui escolhida. Participei de projetos significativos, como o lançamento do carro Fox, que envolveu a introdução de conceitos de reciclagem e sustentabilidade que ainda não eram muito conhecidos no Brasil.
O que te levou a mudar de indústria?
Minha experiência profissional na Volkswagen foi determinante na minha carreira, em um momento excelente, que estavam investindo em novos conceitos logísticos, trazendo tecnologia nova… Lá conheci um outro executivo belga que gostou do meu trabalho, e anos depois, me levou para CNH. Por sinal, vale destacar que ele gostava muito do estilo de liderança brasileiro.
Como foi essa transição do Brasil para a Itália?
Cheguei aqui em 2019. Tive dois grandes desafios: primeiro, administrar as rupturas no Supply Chain, começando pela pandemia, que ampliou as dificuldades que já existiam de uma forma muito mais impactante. Segundo, administrar essa mudança cultural estando aqui fora e, não necessariamente, contando com o ambiente corporativo brasileiro, que tem um foco muito maior nas pessoas.
E como você incorpora isso aqui?
Meu foco é 100% nas pessoas e no seu bem-estar. Tento ser uma líder mais no estilo democrático, onde as pessoas tem liberdade para atuar e compartilhar as suas ideias. Fomento a interação entre os membros da equipe e todos os colegas. Para mim a liberdade de expressão e o espírito de equipe são essenciais para um bom ambiente de trabalho e, como consequência, trazem o melhor resultado para a empresa.
Tento também incentivar a minha equipe a adotar uma mentalidade de “deixa eu ver, vou pesquisar", em vez de aceitar um "não" como resposta definitiva. Acredito que esse espírito de iniciativa e adaptação é fundamental para o sucesso em um ambiente global e competitivo.
Selma também conta com orgulho que na última pesquisa de clima organizacional o seu departamento estava 7 pontos acima da média da empresa.
E a IA?
Eu vejo com muito bons olhos, vai dar mais tempo para as pessoas, tirando elas do operacional mecânico para fazerem algo mais criativo e estratégico. Não acho que nos próximos anos vamos conseguir fazer tudo com a IA. Sempre vai existir essa característica humana de buscar a inovação, de debater com outras pessoas alternativas, de se trabalhar em time.
E como está esse processo na sua área?
Já estamos trabalhando com ferramentas de machine learning que estão facilitando as atividades operacionais, mas a maioria ainda está receosa em perder o seu emprego. Na minha área especificamente, o foco não é reduzir pessoas. É prover uma ferramenta que melhore o nosso trabalho e os resultados.
Agora, você me pergunta: as pessoas estão preparadas para essa mudança? Aqui acho que a brasilidade empresarial vem com tudo. Porque o brasileiro não tem medo. O brasileiro sempre encara os desafios, até porque viemos de um país onde os desafios são constantes. Nesse momento, meu papel na minha empresa é facilitar essa implementação e o meu maior desafio é tirar o medo que as pessoas aqui tem dela.
E como se tira o medo?
Dando informação. Você tem medo do que não conhece. Além disso, tento desenvolver no meu time essa capacidade de enfrentar desafios com otimismo, encontrar soluções inovadoras e estar aberto a mudanças.
E quais são as competências e habilidades que essas pessoas precisam ter?
Criatividade, curiosidade, senso analítico, saber aproveitar os dados, ter tomada de decisão, tem que decidir mais, e mais rapidamente, em níveis diferentes, tem coisas que não precisa mais falar com o chefe. O empowerment vai ser maior.
Pra fechar, depois disso tudo, o que te motiva ainda?
Eu nunca me acomodei e falo pra todos, sejam curiosos. Veio a IA e imediatamente comecei a estudar sobre isso. Mas especialmente estando em postos de liderança, tenho a oportunidade de mudar a vida de muitas pessoas. E tenho feito muito isso ao longo da minha carreira. Não só com os mais experientes, mas com os jovens também. Assim como um dia acreditaram em mim quando estava começando. Trabalhar com pessoas, enxergar o potencial delas e poder dar oportunidades... é isso que me motiva. É isso que me deixa realmente feliz.
Minha frase de vida: Build Trust and Care about People.
Você é um líder brasileiro atuando na Itália ou na Europa?
A Comunidade Executiva da Brasilidade Empresarial reúne executivos brasileiros para compartilhar experiências, ampliar conexões e transformar trajetórias individuais em inteligência coletiva.